O EU E O OUTRO: DA IMAGEM À IMAGOLOGIA
Celeste H. M. Ribeiro de Sousa – USP
Em encontros internacionais, quando não se trata de encontros específicos sobre literatura ou cultura brasileira, é freqüente ouvirmos falar do Brasil através de estereótipos, que todos nós conhecemos, ou então pelo que a mídia estrangeira transmite, normalmente aquelas notícias bem negativas, como as rebeliões de presos, as enchentes, a derrubada da Amazônia, etc. A par disso, convém observar que imagens do Brasil em obras de literatura estrangeira não são tão raras quanto se possa supor. Se as notícias veiculadas pela mídia, ainda que negativas, são efêmeras, o mesmo não se pode dizer das imagens literariamente consubstanciadas; estas têm duração infinita. E, por isso, se quisermos que os estrangeiros tenham do país imagens menos estereotipadas e mais abrangentes de nossa realidade, talvez seja de utilidade enveredar pela imagologia, tal como apresentada por Hugo Dyserinck em Komparatistik e em diversos outros ensaios, investigando tais imagens e discutindo-as pelas razões que apresentamos a seguir. Álvaro Machado e Daniel Pageaux em seu livro Literatura portuguesa, literatura comparada e teoria da literatura também se referem à importância da imagologia - o estudo da imagem de um país em obras literárias - dizendo: que
o estudo da imagem leva à determinação das linhas de força que regem a cultura, quer de um escritor, quer de um grupo social, quer de um país, nos seus representantes letrados: o estudo das imagens é, consequentemente, indissociável daquilo a que chamamos história das ideias, das mentalidades, digamos mesmo das sensibilidades [...] A imagem não passaria, consequentemente, de uma forma extrema, pitoresca, singular de uma ideologia de que é, por vezes, difícil dar uma definição.[1]
Realmente, para entender o mundo, as coisas à sua volta, para enfim emprestar um sentido à vida e sobreviver ao caos, o homem se atribui a tarefa infindável de ordenar as sensações, de reconhecê-las, de classificá-las e de prevê-las. Afinal, o mundo é instável e está em constante devir, as sensações deslocam-se ou simplesmente se desfazem: as plantas nascem, crescem, florescem, dão frutos, definham e morrem. A água evapora-se, forma nuvens, torna-se líquida e cai em forma de chuva sobre a terra, transformando-se por vezes em gelo ou neve. Um modo de superar a insegurança advinda dessa instabilidade é descobrir uma ordem que governe este devir universal.
No que se refere à imagem, há que lhe traçar o percurso, entre outras coisas. Assim, a imagem vai achar-se ancorada nas sensações, estimuladas ou por raios luminosos que estimulam os nossos olhos, ou por ondas sonoras que atingem os nossos ouvidos, ou por quaisquer outros estímulos que sensibilizem os demais órgãos dos sentidos (pele, nariz, língua). Tais sensações são transmitidos ao cérebro e este, seguindo determinadas leis (a lei da associação espontânea e da associação reflexiva, a lei da reintegração e a lei do interesse), faz delas sua interpretação, interpretação essa que, no final, espelha o mundo externo. Charles Sanders Peirce aborda a teoria da percepção do ponto de vista semiótico e atribui-lhe um caráter triádico, ou seja, a percepção para ele envolve três estágios: o perceptum ou estímulo, o precipuum ou o modo como o estímulo é filtrado e o juízo perceptivo[2]. As sensações encontram-se classificadas e tipificadas: há sensações agradáveis e desagradáveis, coloridas, luminosas, escuras, musicais, ruidosas, tácteis identificadoras da resistência dos corpos, de sua forma, de seu peso, de sua maciez, aspereza, lisura, humidade, secura. Há ainda as sensações gustativas, ligadas ao doce, ao amargo, salgado, as olfativas que dão conta dos odores aromáticos [anis], dos balsâmicos [cânfora], dos nauseabundos [ranço], etéreos [fruta], perfumados [flores]) As sensações térmicas traduzem o calor e o frio, e as álgicas a dor. Mas há também sensações quinestésicas, associadas ao movimento e ao esforço, sensações cenestésicas, ligadas à circulação sanguínea, à respiração, à digestão, às secreções, sensações de bem-estar e de mal-estar, como as da fome, da sede, da fadiga, da sonolência, do calafrio, da náusea e sensações estáticas voltadas para o equilíbrio, para a orientação, ou para a coordenadação dos movimentos.
A sensação, que é uma reação nervosa deflagrada no âmbito de um ou mais órgãos dos sentidos, e é causada pelo nosso contato com o mundo exterior, constitui também o acesso de que dispomos para atingir esse mundo exterior. Então, os órgãos dos sentidos funcionam como ruas de mão dupla: o mundo exterior vem até nós por meio das sensações que desencadeia e, por meio destas mesmas sensações posteriormente elaboradas, nós chegamos ao mundo exterior. Isto leva-nos a dizer com Johann Gottlob Frege, que o conhecimento é biologicamente determinado[3]. Não nos esqueçamos, todavia, de que nossos órgãos sensoriais também apresentam limitações, estudadas pela ciência. Não vemos de modo natural realidades que descobrimos existirem através das lentes dos microscópios ou telescópios; não ouvimos sons abaixo ou acima de uma determinada onda vibratória, por exemplo. Isto significa que o mundo exterior não chega até nós tal qual, nem em sua totalidade.
Quando o ser humano refere as suas sensações ao objeto que as provocou, interpretando-as e objetivando-as, passa a representar o próprio objeto exterior. Diz-se então que o homem percebe o objeto. A perceção envolve, assim, uma síntese de vários conhecimentos que são fornecidos pelos sentidos. As sensações são transmitidas ao cérebro que as percebe e interpreta, sendo estas mesmas percepções e interpretações, depois, arquivadas na memória. A memória seria, então, o poder de conservar, reproduzir, reconhecer e localizar as interpretações das sensações experimentadas. Essas interpretações, sempre que chamadas à consciência, apresentam a forma de imagens. A imagem seria, portanto, a reviviscência ou a representação de uma sensação/percepção ou de um conjunto de sensações/percepções, que se encontram arquivados na memória, e que, portanto, acontece na ausência do objeto que os provocou. A imagem seria, assim, uma configuração simbólica do real, efetuada no âmbito do cérebro, passível de ser mediatizada por um código. A imagem seria, portanto, uma forma de mimese, não se considerando aqui mimese em seu sentido tradicional unívoco de cópia fiel, mas ampliando-lhe o espectro conceitual para todas as representações possíveis que, afinal, são tentativas de tradução, quer de realidades exteriores quer de realidades interiores, pois estes dois tipos de realidade estão intrinsecamente interligados, como vimos.[4]
Voltemos à memória. Tudo o que ela nos fornece, então, são imagens ou espelhamentos reconstruídos das sensações/percepções originais produzidas pelo contato com o mundo exterior. As imagens são assim produtos de um processo que chamamos de imaginação. (Em determinados níveis de abstração, no entanto, o pensamento pode desenrolar-se sem precisar recorrer às imagens[5].)
A imaginação, ao trabalhar através de associações quer espontanea quer reflexivamente, fornece imagens mais ou menos próximas dos objetos estimulantes. A maneira como o cérebro faz a interpretação das sensações que experimenta e armazena apresenta diferentes e múltiplos estágios de complexidade, variando de indivíduo para indivíduo, de acordo com as circunstâncias da existência de cada um. Pela imaginação, chamada criadora, por exemplo, é possível, trazer à consciência partes de diversos objetos estimulantes, recompostos em um novo conjunto significativo, que passa a ser, agora, constituinte do imaginário. A imaginação criadora é, sem dúvida, o motor da metáfora e de toda a literatura.
Por tudo o que vimos, ainda que de modo resumido, podemos voltar àquela rua de mão dupla, utilizada para ilustrar o processo que envolve o percurso entre o mundo exterior e o indivíduo e este e o mundo exterior. Podemos dizer, agora, que a rua de mão dupla, na verdade, é uma verdadeira rede intrincada de caminhos que interligam o exterior e o interior, o outro e o eu em todas as circuntâncias, de modo que poderíamos igualmente dizer que a investigação da imagem que o outro faz de nós ou de nosso país leva à indagação do porquê dessa imagem, e esse processo transforma-se num jeito de conhecermos melhor o outro, o que é exterior a nós, e, simultaneamente, uma maneira de nos vermos espelhados e verificarmos se gostamos do que vemos, por que sim, por que não e, neste movimento, quem sabe não abrimos uma brecha que possibilite a ampliação da imagem do Brasil aos olhos estrangeiros, ao chamar a atenção para o assunto? Pode ser que alguns de nossos escritores se sensibilizem com o problema da imagem que os outros têm de nós e façam alguma coisa nesse sentido. Pode ser que as nossas editoras escolham com mais assiduidade, também para tradução, os livros de literatura estrangeira que contêm imagens de nosso país. Pode ser que alguém no exterior, ao perceber esta preocupação, passe a cooperar conosco. Afinal, o Brasil é mais do que o paraíso, o Eldorado, o inferno, o futebol, o samba, o erotismo, o exótico e o primitivo.
[1] Álvaro Manuel MACHADO & Daniel-Henri PAGEAUX. Literatura portuguesa, literatura comparada e teoria da literatura. Lisboa, Edições 70, 1981, p. 44-45.
[2] Apud SANTAELLA & NÖTH. Imagem, cognição, semiótica, mídia. São Paulo, Iluminuras, 1998.
[3] G. Johann FREGE. Sobre a justificação científica de uma conceitografia. Trad. Luis Henrique Santos. In: Os pensadores. São Paulo, Abril, 1973, vol. XXXVI, p. 195.
[4] Vide: Luis COSTA LIMA - Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro, Guanabara, 1986.
[5] Emmanuel KANT - Crítica da razão pura. In: Os pensadores. São Paulo, Abril, 1973, vol. XXV, p. 10-11.